Réquiem (fragmento)
Lêdo Ivo
Os navios apitam. É hora de partir.
Toda porta fechada é um porto a ser aberto
pelo vento triunfante que dilacera o oceano.
Sempre amei a luz do sol estropiado
que se aninha nos magues, a luz fluvial do dia
sobre as dunas que à noite caminhan no horizonte.
Quem tem a chave dos sonhos abre qualquer porta.
Quem navega dormido chega a qualquer píer
e nos navios vê a abolição da morte.
E sempre ouvi a voz que me chama no escuro,
a voz do outro lado, vinda dos outros mundos
que se desfrazem no ar, lambidos pela bruma.
Sempre amei esta voz que é uma voz nenhuma,
um susurro do nada, a cinza estremecida,
uma areia que range na praia infindável.
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